quarta-feira, setembro 02, 2020

Setembro/2020


a Ana Martins Marques

tem um poema

que fala de copos


quebrar copos

ser quebrada

vidro caco corte


sabe

eu queria ter escrito 

esse poema


outro dia eu o li 

pra minha mãe 


ela que tantos copos

quebrou


tantas vezes 

foi quebrada


é foda isso

ser tão parecida

com vidro


se eu nunca 

tivesse lido

esse poema 


ia querer 

morder o copo


quebrá-lo

com os dentes


deve ser bom

mastigar vidro


não perder

a boca no corte


continuar e morder

as outras coisas do mundo



quarta-feira, julho 15, 2020

A História da Loucura de Michel Foucault

A exclusão imposta aos leprosos é transferida, após o desaparecimento destes, para os “pobres, vagabundos, presidiários e cabeças alienadas”, como dirá Foucault: “Exclusão social, mas reintegração espiritual”. Embora os leprosos (e, depois, outras categorias marginalizadas) fossem completamente repelidos pela comunidade, e sua presença erradicada do convívio dos sãos, eram abençoados pela mão divina: “Meu companheiro”, diz o ritual da Igreja de Viena, “apraz ao Senhor que estejas infestado por essa doença, e te faz o Senhor uma grande graça quando te quer punir pelos males que fizeste neste mundo”. Sua exclusão é acompanhada pela promessa do amor divino: os rejeitados serão salvos.

Essa punição, acompanhada pela reintegração espiritual, talvez seja reencenada hoje pela valorização da loucura nas artes, em contraste com sua contínua exclusão no mundo das práticas ordinárias. Lembro-me da fala de um autor, notadamente desajustado, em uma apresentação organizada numa tentativa (sempre bem-vinda) de dar visibilidade à literatura brasileira praticada por vozes diversas. Alguém comentou a fala desse autor na área de comentários do YouTube: “Mais um louco na academia”.

Ora, o que estava sendo julgado ali não era exatamente o quê (o conteúdo da fala), mas o como (sua forma). A voz gaguejante, os meios-sorrisos e a tentativa claudicante de permanecer em pé diante da plateia são rapidamente percebidos pelo "esperto" comentarista que, longe de notar o próprio gesto, não hesita em abrir a boca e destilar o comentário infeliz.

“O louco da palestra” e as figuras incômodas daqueles que não se expressam dentro dos códigos esperados serão sistematicamente repelidos, ridicularizados e desprezados. Essas mesmas figuras, no entanto, experimentarão os louros e as cortesias ao produzirem algo percebido pela crítica vigente como valoroso, “belo”, instigante, intenso ou perturbador. A arte salva — dizem por aí.



quarta-feira, maio 27, 2020

 Acácias 


Que som ela no jardim
- entre tantas
acácia
agora sei
acabo de vê-la
meus olhos frios
seu amarelo quente
volto ao poema
ele me joga para Parra
na repetição da ideia
uma diferença
então Parra e Daniel
trazem
(só para mim?)
uns bolinhos franceses

quinta-feira, maio 07, 2020


se as coisas pensam, o que é que pensam? como alcançar o pensamento das coisas? as coisas pensam como nós (nós quem?). eu penso em pão, beijo, mar. e as coisas? elas decerto não pensam nada disso. posso forjar um chapéu pensante, mas para falar como um chapéu tenho que me livrar de minha lingua. será que devo cortá-la? ainda assim pensarei com a língua cortada. se eu bater minha cabeça muitas vezes na parede pensarei como um chapéu? certamente não, mas é fato, o que pensará minha cabeça rachada será outra coisa.

sábado, maio 02, 2020

Nunca Esquecer:




JANELA

I

Da janela ainda podem ser vistos
os telhados
também a fumaça
impregnada de pão

II

Quando os low-rise, os high-rise buildings
limparem essa visão
ó, serão tão altos
os edifícios

III

Procura desesperadamente os retalhos
o que vai fazer falta
serão
aquelas telhas quebradas

IV

A janela na rua
dois irmãos está entreaberta
chove fino
coloca a cara para fora do dia que chove fino
seguros estão este dia esta ilha
para os dias futuros a mistura
de ar
água
alegria

V

Penetra o quarto
a enorme presença da mata
ilusão de floresta
_______________
o que existiu
o que não existirá

4 CORDAS

As frases
que dizem
seus olhos
baixos
carregam o ar
de suspeitas
premonições
encosto o ouvido nesse espaço
para tocar o tempo

quarta-feira, abril 29, 2020


26.08.19

muitas vezes/ olhava uma rua / em São Paulo/ ficava feliz/ era um jeito de rua/ uma inclinação/ um jeito de ser rua/ longa/ bastante longa/ e lá no fim/ uma esperança/ enigma/ um jeito de ser nebuloso/ de ser azul/ de ser mar.

29.04.20

rua-mar

jeito de rua
feliz inclinação
jeito de
ser rua
longa
esperança

No link abaixo parte do documentário A Machine Made Of Words sobre o poeta americano W.C.Williams:



No ideas but in things:

W.C.Williams: "I don´t say that I have succeded but you can by arranging the words make a poem. By arranging the words make a poem out of anything PROVIDED you have conceived it, you have seen it in your life."

PASTORAL

Quando jovem
tinha a certeza
devia me tornar alguém
Agora, mais velho,
ando novamente pelas ruas
admirando as casas
dos muito pobres:
telhados desalinhados
quintais entulhados de
arame velho, cinzas,
móveis que deram errado;
cercas e puxadinhos
feitos de tábuas
sobras de caixotes, tudo isso
se eu tiver sorte,
sujos de um verde-azulado
cuja cor encharcada
me agrada mais que qualquer outra

Ninguém
acreditará que isto
seja de grande importância à nação.
W.C.Williams
Tradução Mônica Fernandes

Traduções


PASTORAL

Quando jovem
tinha a certeza
devia me tornar alguém
Agora, mais velho,
ando novamente pelas ruas
admirando as casas
dos muito pobres:
telhados desalinhados
quintais entulhados de
arame velho, cinzas,
móveis que deram errado;
cercas e puxadinhos
feitos de tábuas
sobras de caixotes, tudo isso
se eu tiver sorte,
sujos de um verde-azulado
cuja cor encharcada
me agrada mais que qualquer outra

Ninguém
acreditará que isto
seja de grande importância à nação.

W.C.Williams
Tradução Mônica Fernandes