A História da Loucura de Michel Foucault
A exclusão imposta aos leprosos é transferida, após o desaparecimento destes, para os “pobres, vagabundos, presidiários e cabeças alienadas”, como dirá Foucault: “Exclusão social, mas reintegração espiritual”. Embora os leprosos (e, depois, outras categorias marginalizadas) fossem completamente repelidos pela comunidade, e sua presença erradicada do convívio dos sãos, eram abençoados pela mão divina: “Meu companheiro”, diz o ritual da Igreja de Viena, “apraz ao Senhor que estejas infestado por essa doença, e te faz o Senhor uma grande graça quando te quer punir pelos males que fizeste neste mundo”. Sua exclusão é acompanhada pela promessa do amor divino: os rejeitados serão salvos.
Essa punição, acompanhada pela reintegração espiritual, talvez seja reencenada hoje pela valorização da loucura nas artes, em contraste com sua contínua exclusão no mundo das práticas ordinárias. Lembro-me da fala de um autor, notadamente desajustado, em uma apresentação organizada numa tentativa (sempre bem-vinda) de dar visibilidade à literatura brasileira praticada por vozes diversas. Alguém comentou a fala desse autor na área de comentários do YouTube: “Mais um louco na academia”.
Ora, o que estava sendo julgado ali não era exatamente o quê (o conteúdo da fala), mas o como (sua forma). A voz gaguejante, os meios-sorrisos e a tentativa claudicante de permanecer em pé diante da plateia são rapidamente percebidos pelo "esperto" comentarista que, longe de notar o próprio gesto, não hesita em abrir a boca e destilar o comentário infeliz.
“O louco da palestra” e as figuras incômodas daqueles que não se expressam dentro dos códigos esperados serão sistematicamente repelidos, ridicularizados e desprezados. Essas mesmas figuras, no entanto, experimentarão os louros e as cortesias ao produzirem algo percebido pela crítica vigente como valoroso, “belo”, instigante, intenso ou perturbador. A arte salva — dizem por aí.
